***AVISO: Contém spoilers. Se ainda não viram o filme, não leiam isto!***

Bom. Fui ver o Hobbit. É o primeiro filme 3D que vi, porque para mim, é uma merda dispensável.
Houve uma série de erros que cometi antes de ir ver o filme, os quais me fizeram ir com os dois pés atrás ver isto:
- Um, vejo incontáveis vezes os filmes em maratonas. Sei de frente pra trás, trás prá frente, lados, acima e abaixo as deixas, os planos e os pormenores deliciosos como mãos sujas e duras, ásperas, de gente rude, mas gentil de trato, não com mãos de princesa a empunhar espadas. O meu nível de exigência para o "acrescento" era, pois, grande.
- Dois, desde que comprei o tablet e comecei a ler, a primeira coisa que comecei a ler foi toda a saga. Sabendo de antemão que o Hobbit, o seu ponto fulcral, não tinha quase nada a ver com o Sauron, o Anel não tinha grande destaque (apenas um anel mágico que fornecia invisibilidade), o foco principal era a reconquista de Eriador. o combate com o Smaug, e que o resto dos livros foram um «acrescento» fantástico a uma história de fantasia.
- Três, vejo isto do 3D como chamariz tecnológico para mascarar erros ou guiões fracos. Exactamente como nos videojogos, grandes gráficos não fazem bons jogos. Grandes gráficos tendem a mascarar o facto que os jogos são uma merda, infelizmente algo corriqueiro nesta nova geração deles, onde para mim, apenas meia dúzia têm conteúdo.
- Quatro, se uma coisa tem 3 filmes, cada um superando o outro (excepto o Matrix, onde o 3º é francamente o pior), as coisas devem morrer e ficar num pedestal intocável. Star Wars, LOtR e Matrix. Perfeitos na sua essência, imaculados na concepção, com os seus erros e virtudes, mas puros.
- Finalmente, e creio, o pior, cinco, não achei o Hobbit capaz de dar 3 filmes quando ficou tanto por contar nos outros 3 livros, que têm muito mais "sumo". O meu maior receio é que isto fosse feito apenas para encher chouriço e sacar uns cobres com tudo isto.
Estes "pés atrás" estão presentes quando meti os óculos. Porque a merda que fizeram com o Star Wars ep I / II / III nunca há de ser removida do meu cérebro por mais que viva.
Assim, começamos por uma introdução estranha a tudo. Compreendo que haja pessoas que nunca viram a trilogia e precisam de ser introduzidas à mecânica, mas achei-a banal e fraca.
O Bilbo nunca falaria daquela forma como se estivesse a ler duma folha de papel, mas sim do coração, a interacção com o Frodo pareceu-me descabida e carece de sentido, porque o livro começou a ser idealizado 60 anos antes do LOtR (ou melhor, 58, já que o Bilbo passa ano e meio fora de portas) , já que foi aí que começou a aventura. Começou a ser escrito ainda antes do Frodo nascer.
Aos 111 anos do Bilbo e 33 do Frodo (fazem anos no mesmo dia) ele é semi-completo e entregue ao Frodo. como se sabe.
Começar o Hobbit com a sugestão que o livro "There and back again" começou a ser escrito perto da data da grande festa do Bilbo (note-se a placa "no admittance except party buisness que é igual à do Irmandade do Anel e as roupas são as mesmas também) ainda me fez pior aos receios que isto seria um flop.
Outra coisa que é um risco. As pessoas envelhecem. Ver o Gandalf mais velho 60 anos antes, é daquelas coisas...
Havia umas partes que eu queria mesmo ver. A cena do trocadilho do "Bom Dia". Parti-me a rir no livro a imaginar o trato do Bilbo com aquela confusão inusitada (Gandalf a ser troll).
O meu problema é estar habituado ao "velho" Bilbo. Este novo, não me convenceu muito. Essa cena, que eu esperava, não me apaixonou.
Mas talvez me estivesse a relembrar do que o Gandalf diz quando bate à porta do Bilbo para a "long awaited party":
"-111 years old...you haven't aged a day."
Sou piquinhas, eu sei.
A seguir, toda a rábula da entrada dos anões, onde nos são apresentados, e confesso que estão todos fantásticamente idealizados e correspondem por inteiro às minhas expectativas. Vimos antes o Thralin, majestoso no seu reino, os anões com as suas grandes barbas, todos de grandes barbas, repito, onde "as mulheres anãs se confundem por anões" e por último quando chega o Thorin, parece-me um Aragorn em tamanho pequeno...
Porquê, mas porquê?, é que ele não parece um anão, mas sim com um cavaleiro de Rohan ou um capitão de Gondor?...
Enfim. Pior que isso seria ver as canções em destaque como se fosse um musical. Sim, era o que me faltava estar a ver um musical.
Oh...wait...
Damn...isto tá cada vez pior e ainda nem devo ir a meia hora dum filme de 3 horas.
Bom. Adiante. Ficámos a conhecer porque se chama Thorin Oakenshield, na sua batalha com o Azog, enquanto o Balin explicava tudo ao Kili e Fili.
Portanto, eu olhei para ali e vi a batalha a papel químico entre o Isildur e o Sauron. Mesmos planos, mesmo ênfase nas expressões, mesmas armas (maça contra espada) apenas o resultado final foi ligeiramente diferente.
Mas tudo igual, já visto.
Bom, os trolls. Fielmente representados, com aquele inglês estilo cockey que me divertiu imenso no livro.
Sim, o Bilbo ganha tempo, mas não é o Gandalf que parte a pedra ao meio para que apanhem como sol e se transformem em pedra.
Aliás, o Gandalf só se sabe que lá esteve bem depois, uma vez que ele apenas imitou as vozes dos pŕoprios trolls para lançar a confusão e eles andarem à porrada entre si. Não é ele que, num flash de luz retirado das Duas Torres, com o Sol Nascente por trás ou pelo famoso flash do "YOU SHALL NOT PASS!!!" salva a situação.
Especialmente este último. Uma referência mais que escusada.
É o Bilbo, com uma pequena ajuda.
Confesso que não percebi o destaque ao Radagast. Sinceramente, a única coisa que faz é no Irmandade do Anel, de avisar o Gandalf de que há coisas estranhas. Não no Hobbit.
Achei o trenó de coelhos...enfim. O atrair os Orcs...enfim. E tudo o resto...enfim. Tudo do menor dos feiticeiros que consegue escapar ao Angmar e ficar com uma Morgul Blade, que retorna pelas mãos do Necromancer, um formidável adversário que deverá entrar em cena na 2ª parte do filme.
E vou ignorar o facto de que na caverna dos trolls, onde se acham as armas élficas miticas, estarem todas cobertas de teias de aranha e sujas de pó e terra quando vistas pela primeira vez, e depois ficam imaculadamente limpas de repente no segundo plano onde aparecem.
oh...wait...acabei por mencionar isto...
Pior só mesmo a forma como a Galadriel é "endeusada" no Conselho entre o Saruman, Elrond e o Gandalf. O Celeborn, não sei onde estava. Mas sendo que tem um Ring of Power, é estranho que não esteja com a Galadriel, que se consegue virar sobre si mesma sem mexer os pés numa óbvia plataforma giratória, num plano épico, com o sol poente atrás, a floresta coberta de reflexos dourados e o Gandalf caidínho.
Mas nada já visto foi a passagem por Caradhras, onde no meio da tempestade, as montanhas andam à porrada.
Pedregulhos enormes arremessados, em super slow motion.
Montanhas que andam à porrada, em slow motion.
Um caminho com pouco mais de 40/50cm de largura, 13 anões, um hobbit lá, nas pernas duma montanha que se move, choca, guerreia e não caiem dali, presos com super cola 3.
Uma montanha andante, leva com um calhau nos cornos, e cai, em super slow motion. E entretanto acham a caverna num acaso do destino.
Eu sei que sendo adepto do Star Wars, devia estar calado sobre as físicas empregues, mas calma, isto é na Terra. Média ou não, é a Terra. Há coisas que devem ser realistas e coerentes, ou ficam apenas parvas.
*suspiro*
Passando esta parte que me irritou deveras, e a forma como são levados pelos goblins, que nem quero sequer lembrar-me dela, vou passar à parte onde o Bilbo acha o anel.
Ele cai, sem um arranhão, miraculosamente, duma altura enorme para um buraco escuro. Muito escuro, segundo o livro. A única luz que há, provém da Sting, que, claro, estando num antro de goblins, brilha.
Ele estava a tactear no escuro e encontra o anel, e lá longe ouve-se o Gollum:
"-Lost. Lost! My Precious is lost!"
Portanto, tacteando no escuro, com a Sting a fornecer uma pálida luz azulada, e o anel perdido encontrado, exactamente como no livro e visto no primeiro filme:

Mas de acordo com o The Hobbit, a luz é quente, o túnel/caverna onde o Gollum encontra o goblin que lutava com o Bilbo é bem iluminado e a Sting parece um caralho dum farol ó caralho!

DAFUQ É ESTA MERDA CRL?!
Podre. Podre. Por esta altura já estou mais que podre! Mas alas!, ainda haveria mais. E já lá vou, porque a parte que se segue, a das adivinhas, uma parte que me divertiu muito, mais uma vez este novo Bilbo não me convenceu.
Por outro lado, o Gollum está fantástico nesta nova roupagem, tal como já o Azog o estava. E é o primeiro aspecto positivo que refiro. Também o enxame de goblins está brutal.
E vou já arrumar com isto, ao mencionar o chefe dos goblins.
É abatido pelo Gandaf, cai a pique pela caverna.
Acto contínuo, a estrutura frágil (cordas e tábuas) onde estão 13 anões e um feiticeiro cai duma altura a roçar os, sei lá, 100m?,e ao contrário do que apareceu por 5 ou 6 vezes antes, onde se destrói na queda ao bater em picos de pedra dois ou três metros abaixo, com os goblins lá, esta consegue passar imaculada por todo o tipo de picos rochosos até desabar no chão, com tudo são e salvo.
E depois, uns bons segundos depois, o Goblin Chief que caiu primeiro, abatido pelo Gandal, aterra em cima deles para o "extra comic relief punch line".
E sim, tou a ser piquinhas de novo com a física, especialmente com a Lei da Gravidade e os seus 9.8N. E não achei piada.
Saindo da caverna, preparamos-nos para a parte onde o Azog dá de novo caça ao Thorin.
Vou descontar o facto de isso se passar numa clareira, não num precipício.
Vou descontar o facto de as árvores se toparem à légua que iriam fazer de pedras de dominó até à última, à beira da falésia para o climax emocionante, tudo clichès mais que vistos.
Vou descontar o facto de quando sobe prá árvore o Thorin não ter o escudo de carvalho, aliás, quando é capturado ele não se vê sequer, e quando vai enfrentar o Azog, subitamente está no braço.
Vou descontar o facto do Warg branco morder o Bilbo e arremessá-lo para longe quando se interpõe entre o Azog e o Thorin, e nenhum mal foi feito. Nem uma ferida perfurante, sangue, roupas estragadas, nicles.
E se soubermos as coisas, a Mithril só é encontrada em Eriador, juntamente com o ouro, e estamos bem longe de lá.
Pensando bem, não vou descontar facto nenhum. Foi péssimo. Tal como péssimo é serem deixados, não sei com que intenção, no alto duma montanha, metros e metros no alto, apenas para depois terem que descer rumo à Montanha Solitária.
E acaba aí o filme.
Vou ser honesto e sincero. Hoje, um dia depois, mesmo depois de ganhar 4-1 ao Marítimo, tou com uma neura descomunal.
Irritado como tudo. Deve ser tão notório que as pessoas estranharam de manhã eu estar tão calado e sério.
Sinto-me traído. Sinto que algo que era um trabalho de paixão e atenção ao detalhe se tornou apenas num objecto de lucro fácil, de esticar créditos granjeados, de querer mostrar uma tecnologia (3D 48fps) como se fosse o futuro.
Estou-me a cagar para o 3D. Não quero saber dele pra absolutamente nada. Como repararam, não mencionei uma única vez seja o que for e revi aqui, de memória, o filme completo.
Queria, isso sim, que tivesse existido a mesma paixão e atenção aos pequenos detalhes que duma forma pura e impoluta fizeram da trilogia um objecto de culto.
A ganância do lucro. Odeio-a.
The thieves...the thieves...the filthy little thieves...Curse them. We hates them!
[Edit] - Faltou-me um ponto essencial. Eu sabia que faltava algo no meio de tanta coisa.
A banda sonora.
A desilusão de ter praticamente os mesmos temas a descrever as mesmas personagens, nas mesmas situações ou semelhantes.
Percebo a necessidade duma identificação acústica-visual, mas...é isso ou falta de interesse em criar algo novo e único, ou quererem-se mesmo dar ao trabalho para algo apenas para ganhar uns cobres?
E se é pra ter essa identificação acústica-visual, para quẽ a estupidez da introdução?
E pronto, acho que tá tudo. Felizmente algumas coisas devem-me ter passado ao lado enquanto enchia o balde de pipocas de vómitos incontroláveis.
#sofuckingpissedrightnow
(Este blog foi escrito em completo desacordo com o novo acordo ortográfico.)