Boas
Eu sou um tipo que há longos anos, mas já passando da dezena, me tenho batido contra o preço praticado em Portugal pela Música. E consequentemente, do meu segundo vício, os
videojogos.
Nunca percebi a inflação dos mesmos, especialmente quando me comecei a dar conta mais a fundo dos preços practicados lá fora.
Apesar de tudo, fui um dos muitos resistentes à chamada "pirataria" consumista.
Um dos meus maiores prazeres era pegar no motão, ir à Virgin, ou Casa da Musica, ou Bimotor, ou à Carbono e trazer 15/20 CD's todos os meses. Ao fazê-lo, estava a contribuir com o IVA
(na altura, 19%) para sustentar a máquina do Estado. Para pagar pensões aos velhinhos com pensões de miséria, hospitais, creches, etc..
Isto pode parecer mariquice, mas continua a ser a razão pela qual pago os meus impostos e as minhas contas religiosamente. Acredito no meu papel individual na Sociedade colectiva.
E ocasionalmente, uns jogos PSX, depois PS2, tudo inserido no meu budget mensal.
No fundo, fazia circular o que ganhava. Apesar de, como disse, estar contra a tributação de algo que é no fundo Cultura, a 19%.
Nunca vi diferença entre um livro e um CD. Ou um jogo. Logo, entrei nas petições e diversas manifestações para que fosse equiparada a taxa desses produtos duma forma fervorosa.
À medida que fui crescendo, e a taxação de 19% para 21% também cresceu, a "pirataria" começou a ser uma forma de separar o trigo do joio. Já não me podia dar ao luxo de comprar flops, como o
White Irisis Blind
dos Scorn, por exemplo. Tive que começar a ser selectivo. Para grande tristeza minha, porque adorava pegar num álbum, "senti-lo" e decidir se o levava ou não.
Quase que o sentia mesmo. Era um jogo que adorava fazer, e quando o álbum era bom, ficava mesmo satisfeito pelo meu "instinto metálico" ser tão apurado.
Mas com os aumentos, reduzi drasticamente o consumo de originais, seja musical ou de
videojogos. Logo, o que eu acrescentava ao Estado, por culpa da sua própria ganância imediatista, decresceu.
Isto que acabei de descrever acima deve ser entendido como um prefácio. Uma introdução.
Nos dias de hoje, com todo o conhecimento a mais, torna-se óbvio que há coisas por explicar nos preços practicados. Não consigo conceber como dei 21€ cada há uns 9 meses atrás pelo Testimony of the Ancients ('91) e o Consuming Impulse ('90) dos
Pestilence
(porque andava a refazer em CD tudo o que tenho em vinil) e esses mesmos trabalhos são vendidos a pouco mais de 8/9€ já com portes vindos do UK.
O mesmo com os jogos, como todos sabemos. Não concebo como um jogo com um
retail value de X, lá fora é vendido a uma taxa Y com um preço Z, mas cá é influenciado por factores estranhos que o aumentam a Z++.
E isso é fácil de ver consoante as
taxas practicadas nos países
.
Se um jogo tiver um valor de, imaginemos, 45€ à cabeça, e se tiver uma taxa de 20% no UK (que na realidade são 17,5 actualmente), dá-nos um valor de 54€
(sem portes) . Note-se que fui para a taxa máxima.
Esse mesmo jogo, em Portugal, é-nos taxado a 22%, logo 71€ actualmente é o preço normal.
São
17€ perdidos algures.
O mesmo "algures" que faz com que eu tivesse pago 21€ por algo que é vendido, com portes, a 8/9€ na música.
Isso explica ter pago 48€ pelo FF XIII na Amazon.uk e não 70€, valor cá. Eu dei 5% de VAT aos bifes
(OMG! Eles consideram um bem essencial um videojogo...tal como cá o golfe para elites ou ginásio para meninas ricas...), e não o valor correspondente ao Estado português.
Duma forma interpretativa muito liberal, escapo-me ao fisco pelo mesmo bem consumido duma forma absolutamente legal.
Claro que o meu caso pessoal, é o meu caso pessoal. Mas vamos ver uma coisa. Quantos de nós, gamers e musicólogos, existem?
A resposta é simples: muitos. E alguns consomem imenso.
Portugal é um país muito dado à cultura, seja sob que tipo de arte for. Isso explica, por exemplo, que se continue a ir ao cinema com preços absurdos, em salas que são uma merda, para ver filmes que, muitas vezes com 1 ou 2 dias de projecção, já têm riscos. E eu vi isso no LoTR 3, Matrix Reloaded e Harry Potter 2!
Explica a imensa afluência aos festivais de musica, ao acarinharmos bandas como Guano Apes ou Skunk Anase mesmo antes de subirem ao estrelado, ou à nossa preferência por
videojogos.
Fã-clubs da Sega
(que eu, orgulhosamente ainda tenho o cartão na carteira. Sou Sega fã até morrer!) ou Nintendo, revistas a elas dedicadas na altura, revistas para consolas generalistas actuais ou especializadas, todos temos a perfeita noção que nós, gamers, somos mais que muitos.
Sim, existe toda uma indústria associada que com a nossa contribuição, comprando-as, reverte para o Estado, cria emprego, dinamiza a Economia.
Todos nós dispostos a desembolsarmos dinheiro para o Estado, em software, hardware ou consumíveis diversos, nas mais variadas plataformas. Nós, Sony fãs, Xbox fãs, Nintendo fãs, PC fãs, todos nós, no mesmo barco.
Adoramos as nossas máquinas, queremos os melhores títulos e divertirmos-nos.
E o que faz o Estado com tanta vontade e gosto pela Cultura? Aumenta para 23% o IVA e cerceia a nossa vontade de sustentar o Estado, "obrigando-nos" a dar o dinheiro de impostos a países terceiros.
Acho que este é um passo errado. Porque existem as tais alternativas. E sempre que compramos lá fora, o Estado perde.
Eu adoro Portugal. Acho que, mesmo mal como tudo, no panorama político, mesmo sendo constantemente fodidos porque o alvo a abater pelas agências de rating é o Euro, não nós, somos o mais democrático, ordeiro e belo país da Europa, e do Mundo.
Não é à toa que todas as bandas que cà vêm nos adoram. Somos apaixonados. Vivemos anos sob ditadura, aprendemos a crescer, temos os nossos defeitos, é certo, mas continuo a amar esta país.
De modos que me dá pena ver que os governantes continuam a não pensar num simples facto:
O Português gosta de comer, passear e divertir-se.
Aumentar ainda mais a carga fiscal que incide nestes factores só vai fazer com que não só haja uma retracção no consumo de bens, como cada vez mais, e com mais divulgação em diversos sites e fóruns da net, o dinheiro que poderia ir parar ao Estado, vá parar a outros.
Sim, porque quando lemos que é o consumo interno a mola da economia, seguida das exportações, parece-me óbvio que é a galinha de ouro que deve ser fomentada a continuar a dar ovos.
Acredito que o nosso mundo gamer, e falo novamente de todas as plataformas, poderia ter uma importante palavra no crescimento económico caso nos sejam dadas as devidas condições,
porque temos uma das mentalidades que regem o Mundo actualmente.
Somos consumistas impulsivos, o capitalismo no seu melhor.
Só isso explica que se paguem DLC's e afins por jogos incompletos, como já anteriormente escrevi. Mesmo num país com baixos salários e fraca auto-estima.
Estamos dispostos a abdicar duma poupança minimamente confortável por mais umas horas num disco prateado, ligado a uma máquina que consome tanto como um frigorífico, logo maior conta da luz, logo mais dinheiro para o Estado, com um periférico engraçado, logo mais IVA, logo mais dinheiro para o Estado, tudo com uma percentagem destinada a pensões e subvenções vitalícias duma cambada de chulos que estão bem na vida, mas mesmo assim ainda querem mais dos mesmos de sempre.
Os chulos de sempre do Estado!
Pode a indústria dos
videojogos ajudar na crise?
Sim, pode e faria isso mesmo caso condições mais vantajosas nos fossem fornecidas!
Façamos um "suponhamos":
Preferem ganhar (preço referência 45€) 10,35€ (55,35€) com IVA a 23% em 10 jogos vendidos ou 30 jogos vendidos com um ganho de 6,75€ (51,75€) numa taxa de 15%?
Falo de 103,50€ contra 202,5€ arrecadados em IVA de forma imediata nesta forma hipotética de cálculo simplista e leigo. O mais barato vende!
Menos 3,6€ por jogo, num jogo a 45€, quer dizer que a cada 12 jogos, teríamos um "de borla".
O que me irrita é que apesar disto ser hipotético, poderia muito bem ser uma realidade parecida.
Como é que alguém não vê isto, a nossa vontade de consumir, é algo que me causa estupefacção. E revolta. Porque continuaria a gostar de ajudar o meu país, fazendo circular o meu dinheiro nas coisas que gosto, para as pessoas que o merecem por determinadas agruras da vida os impedirem de ir mais à frente. Não toxicodependentes nem preguiçosos que recebem subsídios de inserção sem sequer estarem inscritos num centro de emprego!
Mas assim, é insustentável.
Irão argumentar que é imperativo resolver tudo agora, em meia dúzia de meses. Mas não se fazem omeletes sem ovos.
Um dia, quando abrirem os olhos, vão começar a querer taxar os jogos/semelhantes importados, tal como fizeram aos carros comprados lá fora ou mais recentemente, ao limite de gasolina que se pode comprar e transportar vinda de Espanha.
Mas aí eu pergunto:
"-Se a União Europeia é sinónimo de livre circulação de pessoas e bens, como é que me podem cobrar a mais por algo que eu tenho pleno direito como cidadão europeu, que é comprar onde eu quiser e bem me apetecer, com os preços nativos practicados?"E no fim, vou continuar sem resposta quanto ao facto dos jogos encarecerem 17€ em média no território luso...
(Este texto foi escrito em completo desacordo com o novo acordo ortográfico.)