Neste último dia 11 de Abril de 2013 tive a experiência mais desagradável e traumática que já tive.
Mesmo superando problemas de saúde, mesmo superando o(s) meu(s) acidente(s) de mota.
Tinha acabado de chegar a casa, após fazer mais uma hora no bules. Tomei um banho rápido enquanto aquecia o jantar no micro-ondas e me preparava para ver a 2ªa parte do Newcastle - Benfica, que claro, iríamos ganhar, ou no mínimo passar.
E lá estava eu, a comer, pijama e chinelos, olhos postos na tv a ver o Glorioso, quando oiço um "gorguelejar" de água ao mesmo tempo que sinto os pés molhados.
Olho para o chão e vejo água. Imensa água. Mais água que já gastei nestes 6 anos no chão para o lavar.
O meu pensamento imediato foi:
"-Crl. A máquina de lavar a roupa. Saltou a mangueira outra vez!"
Mas a água ia para lá, não de lá para cá.
Olho para a porta e vejo água e lama a entrar a rodos. E apenas um pensamento me saltou ao pensamento.
SALVA O PORN NO PC CRL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!111
Num salto, levanto o pc do chão (felizmente que não o tinha na secretária, no espaço a ele dedicado) ao mesmo tempo que a água começa a fluir por toda a casa, imparável.
Com o porn a salvo, pego no telemóvel, dou 3 pulos e corto a luz antes que mal maiores pudessem acontecer, e a altura da água a subir, oblívia ao meu desespero e confusão.
Imediatamente soube ali, no escuro, que tudo o que tinha, comprado com o meu suor, estava perdido.
Abro a porta da rua e deparo-me com um cenário dantesco. Água, a jogar do solo directamente para o meu pátio. Sem parar. Cada vez mais alto.

Pessoas na rua pediam desculpa, a água era tanta que nem podiam atravessar para me avisar, telefones eram freneticamente activados, o meu incluso, ligado ora 112, ora os meus pais, porque o telefone dos SMAS que eu tinha estava desactualizado.
E eis que finalmente estabilizou, porque esta rua tem 2 pontos de escoamento, para a esquerda e para a direita há duas ruas que descem.
No meu pátio, 50/60cm de água, na minha casa, em toda ela, 20/22cm de água.


E eu ali. No beiral da minha porta, água pouco abaixo das canelas, ensopando chinelos, meias, pijama, sem nada poder fazer.
Felizmente que os SMAS foram rápidos a atender. Em pouco mais de 30m a água foi fechada, começando logo a descer o nível de água.
Em minha casa, tudo flutuava. Coisas que estavam na sala queriam dar uma volta ao pátio, coisas da sala queriam ir ao wc, enfim, percebem a cena. Um caos desordenado numa casa que era um caos ordenado.

Armado com uma lanternita comecei a tirar fotos, mal a água se tornou bem mais baixa, porque sei que iriam ser necessárias.


Uma das coisas que aprendi é que nestes casos, a menos que a água tenha pelo menos 50cm, os bombeiros não vão aparecer. Porque as bombas só funcionam com essa profundidade.
O que acho estranho, já que as caves que ficam alagadas aparentemente são limpas por eles.
Outra coisa que aprendi é que ficamos completamente sós. Aparte de vários aconselhamentos para tirar fotos por parte do pessoal dos SMAS, que foram bastante simpáticos, e eu já me tinha adiantado, ficamos sós, com os pensamentos, contemplando a perda de tudo, com uma lanterna e uma vassoura, a empurrar a água no escuro durante 2h até finalmente me dar a coragem e ligar o quadro de novo, só a parte da iluminação.
Aí sim, o choque. Marcas de lama em todo o lado. Lama em todo o lado. Mas ao mesmo tempo, estava muito calmo. Consolava-me o pensamento pensar que poderia ser pior.

Um incêndio, uma cheia fluvial, isso sim, é uma vida perdida, se não tiverem seguro de casa. Aqui, como é na via pública, pelo menos perda total não seria. Pensei nas pessoas que estavam piores que eu, valorizei-lhes o desespero, a tristeza e a angústia. Mal ou bem, sou um privilegiado. Tentei-me enganar assim, para não chorar, porque só depois de estranhar a minha sala continuar cheia de água por mais que limpasse é que me lembrei que tinha faixas e bandeiras da Raça Benfiquista na arrumação do meu sofá.

Claro que há coisas que não têm preço. Os meus vinis, estragados, não têm preço. Alguns com 30 anos. Que fizeram a minha vida ser o que é, me ensinaram, ajudaram, ampararam, me divertiram, isso não tem preço.

A minha aparelhagem, que me custou 150 contos há anos, que tanto som me deu,

e o meu transformador do tablet, um gadget que me conquistou, estragado, e agora para arranjar um tem sido uma luta descomunal.
E que dizer da minha guitara clássica Manuel Ribera, que comprei por 25 contos, que na altura era dinheiro?...
Após tirar o grosso da lama, pouco depois da meia-noite, lá apareceu alguém responsável e que me pôde dar algumas respostas. Felizmente é daquele tipo de pessoas raras que realmente levam a coisa a sério.

Após visualizar (e depois do choque inicial que toda a gente teve ao ver o "aftermath" de algo que, todos me disseram, é raríssimo acontecer com esta gravidade), tomou o meu caso em mãos. O que agradeço. É um gajo bacano e melhor, Benfiquista.
E depois, começa o pior. A espera por contactos que permitam erguer de novo a cabeça, lavar tudo como deve ser e comprar de novo o que tá estragado. isto porque decidi encarar a peritagem como um acidente rodoviário. Não limpei nada mais a não ser a lama do chão, deixei ficar marcas de água na parede, e mobiliário.
Isto implica que não estou na minha casa, no meu canto.
Dia 12, sexta, passou, faltei ao trabalho para andar a fazer umas limpezas ligeiras, com imensa sorte com a meteorologia, já que não choveu nestes 3 dias em que estive aqui, secando coisas lá fora, avaliando prejuízos, seguro que o engenheiro dos SMAS, que me confirmou que as coisas seriam tratadas logo na 2ª feira dia 15, tinha dado um andamento valente à coisa.
Passou 15, 16, 17, os meus vizinhos, que foram duramente afectados, estavam bastante em baixo e achei melhor obter respostas.
Para surpresa minha, e do engenheiro, ambos ficámos surpresos por não termos sido contactados para marcarmos uma peritagem. Ele pensava que a seguradora tinha tudo a andar, e como não tinha dito mais nada (porque não gosto de incomodar as pessoas), que estava tudo bem.
O problema é que, não estava.
Deu-me um número de telefone, o número da apólice e se nada fosse marcado, pra ligar pra lá. Eu e o meu vizinho. E combinei com o meu vizinho esperar até 6ª, não fosse o ofício que me foi dito já ter sido enviado, chegar pelo correio.
De modos que 6ª, depois de almoçar e aborrecido por não poder estar a ler no meu tablet, venho a casa num instante para ver o correio.
Nada. Nicles. Zilsch. Kein. Niente. Nothing. Rien.
Já que cá estava, e o número a ligar era um 707, vou a casa e ligo.
Dou o número da apólice e uma coisa estranha acontece.
Há uma apólice, cuja existência não foi negada, mas não há ocorrência do incidente.
Como não me apetece andar a pagar a chulos, pedi o contacto de mail dos sinistros, foi-me entregue, e ao ir para o trabalho entrei em contacto com o engenheiro, que não pôde atender, mas ligou-me por volta das 18:00.
Ao contar-lhe isto, passou-se. Disse-me que ele entregou a ordem de serviço na 2ª, na 3ª as coisas estavam a seguir os trâmites no departamento jurídico e que 4ª esse mesmo departamento enviou o processo à seguradora, que me deveria ter contactado logo.
E concordou quando lhe disse que ia fazer pressão na seguradora ao enviar um mail com fotos anexas a exigir a peritagem a.s.a.p. .
E assim me encontro hoje, 10 dias fora de casa and counting, com visitas ocasionais ao meu mundo possível, com tudo a ser orçamentado para ser indemnizado, sem poder refazer a minha vida porque preciso da peritagem, já que tenho isto preservado como prova, triste e amargurado porque não estou no meu canto, a ter prejuízos por ter que fazer mais 36km diários sem necessidade e sem saber o que vou recuperar da minha perda quase total de tudo.
Escapou-se a tv, box do MEO, router, pc, filmes, jogos e consolas.
E depois olho para certas coisas, e fico frustrado. na 4ª feira, um grupo de 4 pretos, sem ar de trabalhador, à noite no café pegam em mais de 60€ para pagar uma tarde de marisco. Um saca dum Samsung Galaxy III de 700€, os outros com roupinha de marca.
Ando eu a trabalhar duro 20 e tal anos pra ter umas coisas, perco tudo. Outros roubam, vendem droga e não têm tristezas destas.
Fico chateado. Claro que fico chateado.
Mas ainda espero pela real guerra que aí vem...
(Este blog foi escrito em completo desacordo com o novo acordo ortográfico.)
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