segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sem Rumo... [Pt I] / Descida ao Inferno Gelado [Pt II]

Sem Rumo... [Pt I]

Viagens...

Sem rumo...sem destino...
Vagueio ao sabor dos ventos,
velas largas enfunadas
de doces-amargos lamentos...

Uma mão cheia de nada,
outra de coisa nenhuma,
sinto a brisa do mar no rosto,
aplacando o meu desgosto...

Guio-me pelas estrelas
cristalinas que no céu brilham
reflicto o meu passado,
os caminhos que os meus pés trilham...

Busco nelas a Salvação,
respostas às minhas questões.
Apenas para perceber
que sou um mero cordeiro entre leões.

Nada é o que parece
Nada do que parece,o é.
Intererminavel charada
numa encruzilhada caminhada a pé.

A cada rumo,um destino
Em cada destino,desilusão.
Não há porto seguro
que me abrigue da confusão.

Nevoeiro...inimigo dos navegadores,
que me tolda a visão,
que me tolda os sentidos
quem me tira a decisão...

A Onda...inimiga dos velejadores
que me enregela a Alma,
quem me asfixia o respirar
que me sufoca com o seu beijar...

O Mar...esse ambiguo ambiente,
Ora calmo
Ora frio
Ora agitado
Ora quente...

Traição!Pela calada da noite
O que outrora calmo foi deixou de o ser
O meu barco verga ao peso do desgosto
O comandante que perde o posto...

Agarro-me a um destroço do meu próprio eu
Casca exterior de alguem sem interior.

Apenas o murmùrio da Àgua por companheira,
cantando-me doces canções de embalar.
Vagueio ainda sem destino certo
Sem barco...sem velas ao vento
e sem vislubre de Terra ao perto...

Vagueio...sozinho...na noite
o mar como cama,
as estrelas como cobertor,
adormeçendo lágrimas de dor
diluidas no mar imenso,
a tragédias propenso.

Sem rumo...sem destino...
Vagueio ao sabor das marés.
Lentamente sob o mar deixo-me ir...
Derradeiro caminho a descobrir...

Descida ao Inferno Gelado [Pt II]


Afundo-me...

Deixo a Superficie para trás,
elos de raiva em união,
forjados pelo ferreiro dos Abismos
prendem-se ao meu corpo indefeso
carregando a alma com ainda mais peso.

Inerte,imóvel,adormecido
sem vontade de mais batalhar.
Nada mais me importa agora
Nada me voltará a importar...

Abro os olhos e nada vejo
em plena oceânica negritude
continuo-me a abissar
no inverso da altitude.



Uma Voz ecoa:

Voz:

"-Abre os olhos Mortal,e Vê
O que cego de ódio não vês..."

Eu:

"-Mas...quem és tu?Aparição?
O que no meu sonho fazes?
Caminho para o que me espera
sai daqui e não me atrases..."

Voz:

"-Abre os olhos Mortal,e Vê
Aquilo que tu não queres ver...
Enquanto te afundas sozinho
outras Almas estão a sofrer..."

Eu:

"-Nada me espera ao alto,
deixa-me ao meu arrepio...
pois sou um comandante orgulhoso
que se afunda com o seu navio."

Voz:

"-Abre os olhos Mortal,e vê
aquilo que tens que enfrentar
há mais navios navegantes
num grande oceano para navegar.

Pois enquanto te comiseras sozinho
na tua lenta e longa descida
o mundo não se refaz
da tua inesperada partida..."

Eu:

"-Abro os olhos...
Mas nada vejo...
Estou mergulhado na escuridão..."

Voz:

"-São os teus olhos que enganam,
vê com o teu Coração..."

Eu:

"-O meu Coração não bate,
como pode ele ter Visão?"

Voz:

"-Só não bate se o quiseres,
é apenas tua a Decisão..."

Eu:

"-Mas quem é tu afinal?
Quem é que te traz aqui?..."

Voz:

"-Sou o teu guia,teu igual
sou igualmente parte de ti,
pois quando tu te arrastas ao fundo,
a todos nós nos trazes aqui...

Pois este mar não é o mar
e este sal não é o sal
nadas nossas lágrimas vertidas
causadas pelas tuas dolorosas feridas..."

Silêncio-me...questiono-me...
ainda busco as procuradas respostas...
"-Mas será que são tão importantes
que valham tais dores impostas?"



Redenção

Eu:

"-Tens razão,mal de mim
que me andei inutilmente a enganar....
Se os meus Olhos estão fechados
foi porque não queria acreditar...

Voz:

"-Abre os olhos Mortal,e Vê
aqueles que te veneram.
Pois basta abrires os olhos para Veres
que todos ainda te esperam..."

Eu:

"-Vejo a Lua no Mar-Alto
A ela tenho que chegar,
mas estas malditas correntes
não me deixam movimentar...

Preciso do Vento
do Sol
da Chuva
dos elementos que me criaram
Da Terra,do Fogo e do Ar
para que me possa completar..."


Voz.

"-Fecha os os olhos Mortal,descansa...
Já viste tudo o que tinhas a ver...
agora embala-te na minha Voz...
e deixa-te suavemente adormecer...."



Dou por mim...estou na costa...
deitado de bruços num areal...
"-Que sonho estranho..." - penso eu
"-Mas que incrivelmente real..."

"-Mas...afinal nunca parti...
do rumo nunca houve desvio...
é ele que está no porto,
eis ali o meu lindo navio..."


O meu belo galeão dourado,
de aventuras contemplado,
e a minha grande tripulação,
que o mantém bem fundeado.

O sol nasce em tons de âmbar
Cheiro intenso a maresia,
"Que se recolham as âncoras!!!"
Vamos viver mais este dia.

Libertam-se as velas,
o vento acaricia-as meigamente...
A madeira que range,
e avançamos lentamente.

Do alto do meu posto altivo,
avisto a minha tripulação
com a Alma acalorada
com a sua amizade pelo Capitão...

O sol nasce em tons de âmbar,
Cheiro intenso a maresia.
Os sonhos podem ser pesadelos,
mas velejar com os amigos
é a minha maior alegria.


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